Ar Limpo por um Céu Azul: a importância da medição da qualidade do ar

Em entrevista, coordenador técnico do IEMA, David Tsai, aborda o impacto que a pandemia da Covid-19 trouxe ao ar que respiramos

04 de set de 2020

Crédito: brenoanp

Todas as pessoas têm direito de respirar um ar limpo. Essa é a premissa do Dia Internacional do Ar Limpo por um Céu Azul, anualmente celebrado no dia Sete de Setembro, data estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) para dar visibilidade à temática.

 

A maioria da população global é exposta diariamente a substâncias e resíduos perigosos que aumentam as chances de desenvolver doenças e deficiências ao longo da vida. Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que, em países de renda média ou baixa, 97% das cidades não atendem às diretrizes de qualidade do ar traçadas pela entidade. 

 

A OMS aponta ainda que, anualmente, cerca de sete milhões de mortes acontecem prematuramente por conta dos impactos gerados pela poluição do ar. Além disso, uma má qualidade do ar causa danos também ao clima, à produção de alimentos, à biodiversidade e aos ecossistemas. 

 

Apesar de todos esses fatores problemáticos, a maioria dos cidadãos não tem acesso a dados de qualidade do ar em tempo real. “Este monitoramento é o primeiro passo da gestão ambiental. É preciso um claro diagnóstico do problema, para saber se há poluição ou não, em que nível está e quais os poluentes críticos. Como na medicina, apenas após um diagnóstico preciso é possível receitar soluções”, aponta David Tsai, engenheiro químico e coordenador da área de Emissões  do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).

 

Ao lado do ICLEI América do Sul e de outras entidades, o IEMA faz parte da coordenação técnica da plataforma SEEG Brasil, iniciativa do Observatório do Clima (OC) que produz estimativas anuais das emissões de gases de efeito estufa no Brasil.

 

Em entrevista sobre os impactos que o isolamento causado pela pandemia da Covid-19 gerou na qualidade do ar, David Tsai cita estudos realizados sobre o tema, defende que a retomada da economia deve vir acompanhada de desestímulo ao uso do automóvel e reflete sobre a importância de governos locais realizarem medições de qualidade do ar.

 

Confira a seguir:

 

É possível traçar um paralelo entre o isolamento causado pela pandemia da Covid-19 e a melhora em índices de qualidade do ar?

 

David Tsai: Sim. Principalmente entre os meses de março e maio de 2020. No fim de março, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) publicou uma nota dizendo que a qualidade do ar apresentou melhoras significativas nos primeiros dias de isolamento social. A pesquisadora Maria de Fátima Andrade, professora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), também viu uma redução significativa de poluentes diretamente ligados à emissão veicular, incluindo cerca de 30% de partículas inaláveis.

 

O IEMA analisou os dados da CETESB em São Paulo. Neles, as partículas inaláveis finas (MP2,5) apresentaram nítidas reduções nos níveis monitorados na segunda quinzena de março, quando o distanciamento social começou a ser praticado. Houve reduções significativas na frequência histórica de ultrapassagens de MP2,5 das recomendações da OMS. Por outro lado, o isolamento gerado pela pandemia da Covid-19 impactou pouco no ozônio. Esse poluente continuou alto.

 

Segundo dados do Observatório do Clima, como a pandemia também não tem impactado no desmatamento, na região Norte do Brasil as emissões de material particulado continuaram altas. Nessa região, porém, o monitoramento da qualidade do ar em superfície é inexistente, o que dificulta fazer uma análise mais precisa.

 

Que tipo de ensinamento essa relação entre causa (pandemia) e efeito (melhora do ar) pode nos trazer?

 

Os níveis de poluição do ar podem cair rapidamente se decisões adequadas forem tomadas, como o desestímulo ao uso do automóvel, com investimento em transporte público e ativo nas grandes cidades. A retomada da economia deve incluir esses tipos de “aquecimentos econômicos”, o que poderia gerar emprego e melhorar a qualidade do ar.

 

Com o fim do isolamento e da quarentena, a tendência é que essa melhora se mantenha? Se não, que tipos de ação são possíveis para evitar essa queda da qualidade do ar?

 

A tendência é que essa melhora se esvaia rapidamente. Os poluentes atmosféricos, aqueles que causam danos à saúde de forma direta, são substâncias químicas ou partículas inaláveis caracterizadas por uma vida curta na atmosfera. Estamos falando de horas e dias. Com a queda nas emissões, as concentrações atmosféricas respondem rapidamente, caindo. Mas o contrário também é válido. Com o fim do isolamento e da quarentena e a retomada das emissões, as concentrações atmosféricas voltam a patamares indesejados. Para melhorar os níveis de qualidade do ar, é preciso primeiramente reduzir a atividade veicular, colocando em prática as melhores diretrizes de mobilidade urbana, já estabelecidas no Brasil a partir da Política Nacional de Mobilidade Urbana. Além disso, devem ser adotados padrões tecnológicos de menor impacto na qualidade do ar, como os veículos elétricos, por exemplo. 

 

De quais maneiras a qualidade do ar impacta direta e indiretamente o bem-estar e qualidade de vida da população?

 

Principalmente na questão da saúde. Segundo a OMS, hoje a poluição do ar é a segunda principal causa de mortalidade no mundo. Está perdendo para a Covid-19. O que significa que, antes e depois da Covid-19, a poluição do ar era e deverá voltar a ser a primeira. Além disso, pesquisas indicam que as condições de saúde pré-existentes, como doenças respiratórias e cardiovasculares e problemas ocasionados ou agravados pela exposição prolongada à poluição do ar, aumentam o risco de casos graves de Covid-19.

 

Segundo dados do IEMA, grande parte dos estados brasileiros não monitora oficialmente a qualidade do ar. Por que esse monitoramento é importante? Na sua visão, qual o papel dos governos locais nesse processo de monitorar a qualidade do ar?

 

O monitoramento é o primeiro passo da gestão ambiental. É preciso um claro diagnóstico do problema, para saber se há poluição ou não, em que nível está e quais os poluentes críticos. Como na medicina, apenas após um diagnóstico preciso é possível receitar soluções, que sejam efetivas e custo-benéficas.

 

De acordo com a legislação brasileira, cabe às unidades da federação a responsabilidade de monitorar a qualidade do ar. Mas geralmente os estados não dispõem de recursos orçamentários e pessoal técnico para implementar o monitoramento.

 

Assim, os governos locais devem exigir e cooperar com os governos estaduais para que sejam criadas condições orçamentárias e técnicas para viabilizar o monitoramento. Também é possível que os próprios governos locais assumam a dianteira, implementando um monitoramento próprio. Neste caso, no entanto, é necessária uma estreita coordenação com o órgão estadual, para não haver sobreposição de esforços e despesas, conflitos de informação e incompatibilidade de tecnologias da informação que dificultem uma comunicação integrada à sociedade.

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