Organizações se unem para estimular uso de Soluções baseadas na Natureza no Brasil

Iniciativa lançada no dia 12 de maio fortalece a importância das áreas verdes urbanas para tornar as cidades mais resilientes

14 de maio de 2021

Foto Reprodução: Parque Ibirapuera São Paulo

Oito organizações que atuam pelo desenvolvimento sustentável do Brasil somam esforços para estimular Soluções baseadas na Natureza (SbN) como estratégia para mitigar os efeitos da crise climática nas cidades, enfrentar desafios urbanos e tornar os territórios mais resilientes. O termo é relativamente recente e ainda pouco difundido. Contudo, o conceito, estabelecido pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), é simples: promover intervenções inspiradas em ecossistemas saudáveis para enfrentar desafios urgentes da sociedade, especialmente nas grandes metrópoles. Escassez hídrica, enchentes, desaparecimento da biodiversidade, problemas de saúde e avanço do nível do mar são algumas das questões que podem ser enfrentadas considerando a natureza na solução, gerando benefícios ambientais, sociais e econômicos.

 

A parceria formalizada por meio da Aliança Bioconexão Urbana foi apresentada no dia 12 de maio, durante evento on-line aberto ao público. Fazem parte da iniciativa a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), a Rede Brasil do Pacto Global da ONU, o ICLEI (Governos Locais pela Sustentabilidade), a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), o WRI Brasil, o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) e a The Nature Conservancy Brasil (TNC).

 

“A Aliança Bioconexão Urbana consolida a formalização da parceria entre atores estratégicos com atuação em SbN no Brasil para desenhar soluções compartilhadas que subsidiem a elaboração de políticas públicas, o planejamento urbano sustentável e aumentem o investimento nesta estratégia para tornar as cidades brasileiras mais resilientes aos impactos da mudança do clima”, explica André Ferretti gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, André Ferretti.

 

A Aliança pretende disseminar o conceito de SbN para que a população entenda e valorize as áreas verdes urbanas e metropolitanas, além de contribuir para que o poder público e o setor privado estejam comprometidos com os investimentos necessários nesse tipo de estratégia. Outro intuito é incentivar que áreas naturais sejam protegidas por meio da implantação de soluções que usem a infraestrutura natural em áreas metropolitanas que incluem a área rural, considerando aspectos de adaptação à emergência climática

 

Durante o lançamento da Aliança foi apresentado o plano de ação para consolidar os compromissos entre as organizações envolvidas. O documento vai identificar os trabalhos em andamento, estabelecer metas conjuntas e definir as principais ações. A iniciativa pretende demonstrar que a natureza deve ser considerada como solução desde a integração a políticas setoriais já existentes até a formulação de políticas públicas específicas para estímulo às SbN, ou ainda, por meio de incentivos econômicos. 

 

“Considerar a natureza como parte da solução pode trazer benefícios adicionais além daqueles propostos inicialmente e, por isso, diversas agências internacionais de fomento já começam a solicitar a inclusão de SbN como contrapartida para financiar obras de infraestrutura urbana”, ressalta Marco Aurélio Lobo, coordenador do CGEE.

 

Entre as metas e compromissos a serem assumidos pela Aliança estão a criação de um grupo de trabalho de políticas públicas sobre SbN, ações de engajamento do setor privado e a construção de capacidades junto ao setor público. “A articulação de diferentes atores para que haja entendimento sobre a importância da natureza na busca por soluções efetivas para problemas contemporâneos é um passo essencial para que a transformação das cidades ocorra”, afirma Sophia Picarelli, gerente regional de biodiversidade e desenvolvimento circular do ICLEI América do Sul.  

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SbN na prática

Para a paisagista urbana Cecilia Herzog, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), os grandes problemas que as cidades enfrentam precisam de respostas novas e transdisciplinares, a partir de uma visão de futuro em harmonia com a natureza e seus processos ecológicos. “Soluções baseadas na Natureza são ferramentas que possibilitam que o poder público faça uma gestão transformadora. A utilização de infraestrutura natural deve fazer parte de uma estratégia para garantir cidades mais inteligentes e resilientes para o futuro”, comenta a professora.

 

A infraestrutura verde, uma das aplicações das SbN, vem sendo usada em diferentes regiões do mundo. Por meio da implantação, manutenção ou recuperação de áreas verdes em pontos estratégicos das cidades, por exemplo, cria-se um sistema natural capaz de absorver a água da chuva, filtrar sedimentos do solo e reduzir custos com saneamento e saúde pública.

 

O estudo Infraestrutura Natural para Água no Sistema Cantareira, em São Paulo do WRI Brasil, publicado em 2018 em parceria com diversas entidades, mostrou que o aumento da cobertura florestal em 8% no Sistema Cantareira, na capital paulista, poderia reduzir em 36% a sedimentação. “A infraestrutura natural melhora o desempenho financeiro das empresas de saneamento, reduzindo o custo de tratamento da água. Isso ocorre porque as áreas verdes impedem que mais sedimentos cheguem aos rios e, consequentemente, às estações de tratamento”, explica Rafael Feltran-Barbieri, economista sênior do WRI Brasil. 

 

Assista ao evento na íntegra