O Laboratório Urbano de Políticas Públicas Alimentares (LUPPA) realizou, na última quarta-feira (29), o terceiro seminário da 5ª edição do programa. Promovido pelo Instituto Comida do Amanhã com correalização do ICLEI América do Sul, o encontro, realizado de forma online, reuniu gestores municipais da rede para discutir os desafios da monotonia alimentar e ações ao alcance das cidades para promover a diversidade nos sistemas alimentares. O evento contou com apoio da Cátedra Josué de Castro (USP) e faz parte da programação formativa do LUPPA de 2026.
Ao abordar o conceito e desafios da tríplice monotonia alimentar, a pesquisadora Nadine Marques – nutricionista, mestra e doutora em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP e coordenadora executiva da Cátedra Josué de Castro, – apresentou um panorama dos sistemas alimentares e sua organização complexa e por rede, além de contextualizar como a Revolução Verde dos anos 60 e a prevalência de técnicas que expandiram a produção agropecuária no contexto do pós-guerra continuam a impactar as técnicas até hoje.
Neste contexto, surge a tríplice monotonia alimentar – formada principalmente por monoculturas, na área agrícola; pela prevalência de raças intensivas, na área da pecuária; e dos ultraprocessados na área alimentar. Além disso, a especialista também abordou o impacto da hegemonia do controle corporativo sobre a produção no campo, que influencia na disponibilidade de sementes, agrotóxicos e modelos de produção que seguem a lógica de poucas, mas gigantes, empresas do setor privado.
O contraponto local surge a partir da agroecologia e suas práticas. Entre os destaques, estão a diversificação de sementes com a incorporação de sementes crioulas, que são guardadas por comunidades tradicionais, bioinsumos no lugar de fertilizantes químicos, cultivos integrados em rotação e sistemas agroflorestais. Priorizar espécies locais adaptadas a biomas regionais para resgatar culturas alimentares e desintensificar criações de aves/suínos, além de intensificar moderadamente bovinos com regulação de antibióticos, também foram práticas citadas pela pesquisadora ao longo do webinário.
Entre as experiências compartilhadas pelas cidades participantes no esforço contra a monotonia alimentar, os municípios de Campinas (SP), Niterói (RJ) e Santarém (PA) trouxeram experiências locais para ampliar o debate:
- Mariana Maia, de Campinas (SP), apresentou o Programa “Campinas Solidária e Sustentável” (Lei 16.183/2021, Decreto 2024), que estimula agricultura urbana agroecológica com 253 hortas cadastradas, fornecendo 300 mil mudas, composto, kits de ferramenta e água com tarifa social.
- lbson Viana, de Niterói (RJ), detalhou a Lei 3.766/2023, que proíbe venda de alimentos e bebidas ultraprocessados em escolas públicas e privadas, originada de pesquisa sobre obesidade infantil e dialogando com cozinhas solidárias e workshops de alimentação sustentável.
- Vanderlina Maia, de Santarém (PA), compartilhou a parceria de 2026 com Emater-PA (via ICMBio na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns), que oferece assistência técnica rural para 5 mil famílias extrativistas/ribeirinhas, diversificando de mandioca para hortaliças/frutas.
O seminário reforçou que a monotonia alimentar não é uma escolha individual, mas um modelo enraizado no sistema agroalimentar atual, cujas alternativas e aprimoramentos passam pela agroecologia e pela articulação local. Ao conectar teoria e prática, o seminário do LUPPA demonstrou como cidades brasileiras podem liderar a transição para sistemas alimentares mais diversos, sustentáveis e justos, com exemplos práticos vindos das cidades brasileiras e de seus contextos sociais, culturais e ambientais.
Sobre o Programa
O LUPPA é uma plataforma colaborativa e um programa contínuo de aprendizagem, para apoiar e facilitar que cidades promovam políticas alimentares com abordagem sistêmica, de forma intersetorial, coerente e participativa. Idealizado pelo Instituto Comida do Amanhã em correalização com o ICLEI Brasil, conta com o apoio pleno do Instituto Ibirapitanga, do ICS – Instituto Clima e Sociedade, ITAÚSA, do Instituto Infinis e da Porticus, além do apoio institucional da FAO Brasil – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.